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Artigos e Entrevistas

Neste espaço você pode conferir artigos e entrevistas concedidas pelos executivos da Bayer CropScience:

 

Por que precisamos de uma nova revolução verde
Prof. Dr.Friedrich Berschauer
Presidente do Conselho Administrativo da Bayer CropScience

A ordem internacional da economia agrícola está em maior evidência, como há muito não se via. Os preços recordes de arroz, trigo e milho desencadearam conflitos sobre o abastecimento de alimentos básicos em todos os países do mundo. Quais são os motivos para esse desenvolvimento e que opções temos para conter os custos crescentes, além de salvaguardar o abastecimento de alimentos para a população global no longo prazo?

A discussão atual, relativa ao aumento aparente nos custos dos alimentos, evidencia inicialmente um fato: a crescente conscientização de que o alimento simplesmente não cai do céu. Até certo ponto, as nações industrializadas do ocidente têm pouca compreensão de como é obtido o produto agrícola. Comprar frutas e produtos agrícolas provenientes de todos os países do mundo por preços razoáveis, independentemente da estação do ano, passou a ser algo simplesmente natural. Essa percepção é reforçada pela queda de cerca de 75% no preço dos alimentos desde a década de 70, em decorrência do aumento de produtividade.

A situação começou a mudar a partir de 2005. Em um período de três anos, os preços dos alimentos subiram 75%, primeiramente em decorrência direta do excesso de demanda somado ao abastecimento limitado: cada vez mais pessoas precisam se alimentar a partir de um espaço de terra que, no mínimo, permanece constante. Enquanto o Brasil ainda tem opções para ampliar suas áreas agricultáveis, sem comprometer as regiões de preservação ambiental, o espaço adequado para a agricultura em escala global está sendo reduzido à medida que a desertificação cobra seu preço, além da grande expansão das cidades e da produção industrial que também contribuem para esta diminuição. Ao mesmo tempo, a população mundial aumenta anualmente em cerca de 80 milhões de pessoas. Com tudo isso, apenas um terço das terras agricultáveis que tínhamos por pessoa na década de 50 estarão disponíveis para alimentar a população mundial em 2050

A demanda por produtos agrícolas não processados também está sendo intensificada pela mudança de hábitos alimentares, por exemplo, na Ásia, especialmente pela demanda crescente por carne na China e na Índia. O consumo de carne na China dobrou no período de 15 anos e para a produção de um quilo de carne são necessários muito mais que dez quilos de ração animal o que aumenta a demanda de grãos para a produção deste produto, intensificando a competição por terras para a produção de alimentos. Além disso, o aumento da renda nos mercados emergentes é um catalisador para a troca de proteína vegetal por animal.

Outro fator crucial é o grande aumento dos custos de energia nos últimos anos. O constante aumento dos preços do óleo mineral tornou a produção consideravelmente mais cara para os agricultores. Isso tem efeito direto na operação do maquinário agrícola, no transporte de materiais de produção e colheitas e nas instalações com ar condicionado para armazenagem. O uso de fertilizantes artificiais, cuja manufatura exige o uso intensivo de energia, também contribui significativamente para o aumento dos custos de produção. Os fatores maquinário e energia perfazem um total de aproximadamente 60% dos custos totais da produção de trigo na Europa, por exemplo. Como comparação: apenas seis por cento referem-se a sementes e oito por cento a defensivos agrícolas.

Uma observação mais atenta nos mostra que há um alto grau de correlação entre os custos de energia e os preços das matérias-primas agrícolas nos últimos oito anos. Desde 2000, os preços do óleo cru de um lado e de trigo, milho, soja e canola, do outro, aumentaram, em grande parte de forma paralela. O aumento em espiral dos preços das matérias-primas agrícolas, desde 2007, também é resultado de uma certa especulação dos mercados de capitais. No primeiro trimestre de 2008, por exemplo, cerca de US$ 30 bilhões foram aplicados em commodities agrícolas e investimentos relacionados ao setor.

Além disso, em especial nos últimos dois anos, outros fatores também tiveram um impacto sobre os preços, como perdas de colheita decorrente de fatores climáticos - a pior estiagem do século na Austrália, assim como a demanda adicional de biocombustíveis. Entretanto, não é correto considerar os biocombustíveis como a única e exclusiva razão do aumento dos preços alimentos.

Embora eu acredite que nossa primeira prioridade deva ser a produção de alimentos, os biocombustíveis podem representar uma alternativa importante para atender a crescente demanda global por energia, além de reduzir a emissão dos gases causadores do efeito estufa no mundo todo. A maior parte dos biocombustíveis de "primeira geração" viabiliza a redução da emissão desses gases se comparada com os combustíveis automotivos à base de petróleo, apesar da efetividade variável.

A cana-de-açúcar é um excelente exemplo disso, pois se destaca como uma das culturas com maior eficiência de energia. No Brasil, a cana corresponde a aproximadamente 5% da área agricultável no País e, se forem adotadas boas práticas agrícolas, com a adoção de rotação de culturas e técnicas de produção para aumento do rendimento, a produção da cana-de-açúcar pode se tornar um modelo de desenvolvimento de agricultura sustentável.

Atenta ao cenário mundial, a Bayer CropScience realiza pesquisas intensivas visando o aumento de produtividade de diversas culturas - um esforço que será apoiado por um forte aumento do orçamento de pesquisa e desenvolvimento, que será expandido para aproximadamente 750 milhões de Euros até 2015 (aumento de em cerca de 20%). Ao mesmo tempo, também investigamos matérias-primas energéticas alternativas, como o pinhão manso, que consideramos uma opção promissora para a obtenção de biodiesel. Olhando mais para o futuro, percebemos a crescente importância dos biocombustíveis de segunda geração, baseados na biomassa linho-celulose, que devem melhorar ainda mais o equilíbrio do efeito estufa em todo o mundo.

Dadas as tendências atuais dos mercados agrícolas, também devemos esperar que os níveis dos preços dos alimentos permaneçam altos nos próximos anos. Isso terá um impacto especial nos mercados emergentes e países em desenvolvimento, e a comunidade internacional deve reagir. A elevação dos preços dos alimentos deve ser amortizada por pagamentos diretos aos que deles precisam. Restrições de exportação, por outro lado, são contraproducentes, pois apenas restringem ainda mais o abastecimento. As políticas globais para o futuro devem ser direcionadas para o fortalecimento do abastecimento de forma sustentável.

Devemos promover o comércio internacional, eliminando subvenções, exportações desnecessárias e restrições de mercado, além de encorajar o cultivo de culturas nos países que oferecem as condições de produção mais eficientes para essas culturas. Num cenário global, de área restrita para a produção agrícola, é vital expandir urgentemente o abastecimento de matérias-primas agrícolas no longo prazo. Para isso, é necessária uma nova revolução verde: precisamos investir fortemente e mais em pesquisa, tecnologia e infra-estrutura agrícola, para se alcançar os aumentos de produtividade necessários para continuar a alimentar a crescente população mundial. Precisamos de uma abordagem holística que utilize técnicas otimizadas de rotação de culturas e irrigação, assim como o desenvolvimento de novos defensivos agrícolas e sementes com maior potencial de rendimento. Hoje, de 30 a 40% das culturas globais estariam perdidas sem soluções modernas para a proteção de plantas. Além disso, tendo em vista a mudança climática, a taxa de perda total de culturas poderia ser ainda maior no futuro.

Um elemento importante que pode contribuir para o avanço na produtividade no futuro é a biotecnologia agrícola. Conforme estimativas do Consultative Group on International Agricultural Research, a biotecnologia vegetal pode aumentar o potencial produtivo em cerca de 25%. Não podemos superar os próximos desafios agrícolas com a produção em pequena escala e agricultura orgânica. Não devemos continuar a fechar nossos olhos para as oportunidades inerentes da engenharia genética. Precisamos realmente de uma nova revolução verde.




Última atualização em 26/ 05/ 2009